Encontro Internacional Fernand Deligny, com, em torno e a partir das tentativas
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro / Base Dinâmica
Rio de Janeiro, 25-28 de Agosto de 2016

Desde a publicação, na França, em 2007, das Obras de Fernand Deligny (1913-1996), acompanhamos uma redescoberta importante desse autor e de sua obra. Durante mais de cinquenta anos, Deligny trabalhou com crianças e jovens à margem, considerados “inadaptados” pelos meios médicos, jurídicos e sociais. Ao longo dessas décadas, sua prática e seu pensamento foram se precisando – especialmente a partir de seu encontro com crianças autistas mudas no fim dos anos 1960. A descoberta de Deligny no Brasil tem se intensificado nos últimos anos, não só pela repercussão, cada vez maior nos estudos da subjetividade, da cartografia como pista metodológica, mas também pela presença dos mapas produzidos em Cévennes na Bienal de São Paulo de 2012, de uma videoinstalação inspirada em seu trabalho na Bienal de 2014, e pela publicação da primeira tradução em português de seus textos em outubro de 2015.

O objetivo desse encontro é duplo: por um lado, reconstituir e apresentar ao público brasileiro as grandes experimentações de Deligny – práticas que tocam a saúde mental, a filosofia, a antropologia, a política institucional, a arte e que foram constantemente teorizadas por ele. Por outro lado, abrir essas mesmas práticas a problemáticas contemporâneas que nos tocam diretamente.

Tal reconstituição se articula segundo um triplo eixo. Em primeiro lugar, apresentar as primeiras experiências de Deligny (1938-1965). Durante esse período central, assiste-se à definição e à aplicação do estatuto criado sob a Ocupação da noção de “inadaptação” – que engloba diversas categorias de doentes mentais e delinquentes. Embora dentro das principais instituições públicas, Deligny busca, ao longo dessas diferentes experimentações, destituir o espaço instituído de seu funcionamento habitual.

Em segundo lugar, propomos a reconstituição e análise da experiência junto a crianças autistas mudas na rede criada a partir de 1967 em Cévennes, no sul da França. A proposta de Deligny, resumida na fórmula “viver em presença próxima de crianças autistas”, não é criar uma instituição terapêutica ou de reabilitação social, mas antes uma tentativa de vida em comum com indivíduos radicalmente diferentes. Para tal, uma série de dispositivos e práticas é desenvolvida ao longo de mais de duas décadas: a escrita de Deligny, a cartografia feita pelos diferentes adultos que vivem com as crianças e que tem como objetivo a descrição das trajetórias, dos gestos e das atitudes delas, e enfim o uso da câmera de filmar. Essas práticas, implicando a estruturação de certos dispositivos, possuem uma dimensão antropológica, clínica, estética e política, não se deixando entretanto definir unicamente por nenhum desses aspectos. Há, com efeito, uma inversão de perspectiva bastante particular no método de Deligny: trata-se não de olhar essas crianças de um ponto de vista propriamente psiquiátrico, mas antes antropológico; de tomá-las não como “anormais” ou “deficientes”, mas a partir de um “modo de ser” que lhes é próprio. Nesse sentido, através de um investimento e reinvestimento constante do espaço e do território, o trabalho clínico se vê dispersado em uma série de atividades cujo objetivo é construir um meio favorável à forma particular de viver que essas crianças possuem. Em outras palavras, é questão de proporcionar a elas um meio através do qual elas possam exercer sua normatividade própria. A diferença entre esses indivíduos não estruturados pela linguagem e os sujeitos ditos “normais”, estruturados por esta, é tomada então não como uma diferença qualitativa – que permitiria uma distinção adaptado/inadaptado, normal/anormal, capaz/deficiente –, mas como uma diferença de “estrutura”. E a observação dessa diferença, permite a Deligny desenvolver uma crítica à linguagem e à sua função assimiladora, bem como ao sujeito civilizado ocidental.

Em terceiro lugar, propomos investigar o pensamento de Deligny e sua posição na constelação específica à qual ele pertence. A fim de entender sua singularidade e sua interconexão, é importante definir quais os interlocutores de Deligny, com quem ele mantém uma relação mais ou menos direta, de forma que possamos compreender a posição desse pensamento no debate contemporâneo.

No que concerne à retomada antropológica do problema da psicose, a relação entre Deligny e Claude Lévi-Strauss é fundamental – e nos permite abrir a discussão à antropologia de maneira geral, de forma que podemos entender uma linhagem na qual se inscreve o pensamento de Deligny, que passa por Rousseau, La Boétie e Montaigne, mas ainda Pierre Clastres e o debate paleontológico com André Leroi-Gourhan.

No que concerne o debate filosófico e político, a interlocução com Louis Althusser é também essencial. Deligny mobiliza constantemente, ao longo de sua obra, a noção de “ideologia” retomada do filósofo francês – que também serve de pivô para que Deligny volte ao desenvolvimento de questões políticas e históricas, e de sua posição em relação ao comunismo. Além disso, a primeira recepção filosófica feita por Gilles Deleuze e Félix Guattari, abriu Deligny à posteridade – e mostra a influência determinante deste nos primeiros.

Para o debate clínico, a complexa e ambígua relação com Jacques Lacan, o lacanismo e a psicanálise é de grande interesse – pois é precisamente da psicanálise que Deligny toma emprestado grande parte do seu vocabulário: a própria noção de “sujeito”, por exemplo, é definida por ele a partir de categorias psicanalíticas. Essa distância, e tensão, define a relação de Deligny com os movimentos anti-psiquiátricos e com a psicoterapia institucional e marca sua breve passagem pela Clínica La Borde entre 1965 e 1967, onde manteve um ateliê.

Por fim, outros interlocutores poderão ainda ser evocados para reconstituir precisamente o lugar dessa “filosofia agida”: a relação com o cinema (François Truffaut, Chris Marker e André Bazin), com a psicologia materialista e a crítica da noção de “inadaptação”, visando abordá-la de um ponto de visto sócio-político e não biológico ou naturalizante (Henri Wallon e Louis Le Guillant) e com a etologia (Konrad Lorenz e Karl von Frisch).

A partir de intervenções servindo a essa larga contextualização, abriremos o campo para estudos em torno da figura de Deligny. Sua reflexão se funda no conceito de “humano” e é uma crítica radical a toda forma de “humanismo” e as reflexões que visam definir o homem, que forjariam imagens que os indivíduos devem mais ou menos incorporar, às quais eles devem supostamente tender virtualmente: imagens icônicas e impositivas, essencialistas e definitivas. Por sua vez, Deligny propõe pensar o “humano”, conceito refratário e marginal, que interrompe e perfura toda semelhança imaginada entre os indivíduos. O conceito de “humano”, longe de ser uma nova categoria capaz de definir o homem, aparece sempre em uma tensão insolúvel com certa imagem do homem – do “homem-que-nós-somos”. Mas essa reflexão é conectada constantemente a práticas concretas e materiais sem as quais não teria sentido.

E é esse aspecto em particular que desperta interesse para os estudos jurídicos, pois a obra de Deligny interpela a noção de “norma”, fornece elementos para a reflexão crítica sobre as formas institucionais – e, principalmente, instrui o debate sobre o estatuto do “humano”, abrindo também a possibilidade de um importante debate crítico referente ao campo dos direitos humanos.

Pensamos que essas práticas e reflexões podem servir de inspiração a uma série de temas de ordem institucional, jurídica, política, clínica, artística e de metodologia nos estudos da subjetividade hoje, em um contexto no qual a noção de “inadaptação” ganha outros nomes, mas permanece regulando uma série de discursos, onde a eficácia e o utilitarismo são palavras de ordem ainda mais presentes.

Por isso propusemos a realização desse encontro no qual a obra e vários aspectos do pensamento de Deligny sejam pela primeira vez no Brasil objeto de avaliação por estudiosos, pesquisadores e leitores de variada procedência acadêmica, bem como de artistas e clínicos cujas práticas hoje remetem direta ou indiretamente às reflexões do autor.

Programa do Encontro Fernand Deligny, Rio de Janeiro, 2016

Vídeos do Encontro
25 de Agosto de 2016
26 de Agosto de 2016

…………………………………………………………………………………………………………

La Tentative Deligny
Centre National de la Danse
Paris, 19 avril, 2 mai, 18 novembre, 16 décembre – 2017

Figure légendaire pour tous ceux qui se préoccupaient du sort des enfants « inadaptés » durant le demi-siècle que dura sa recherche, Fernand Deligny (1913-1996) orienta sa pratique et sa réflexion théorique en direction des enfants autistes, des enfants sauvages ou hors-normes, de l’éducation, de la communauté, de l’institution, de l’image, du cinéma, de l’écriture. Consulté et discuté en des lieux d’action et de pensée très divers dès les années 1940, Fernand Deligny est tombé, après sa mort, dans une sorte de clandestinité culturelle.Il réapparaît dans l’espace public en 2007 avec la parution, aux éditions L’Arachnéen, des OEuvres, un volume exceptionnel de 1848 pages denses regroupant et présentant une part importante de ses textes et des films qui l’accompagnèrent. Puis, chez le même éditeur, L’Arachnéen et autres textes l’année suivante, le roman La septième face du dé, des Cartes et lignes d’erre et le Journal de Janmari en 2013, enfin, tout récemment, des Lettres à un travailleur social (2017).

Ces volumes ont permis, en une décennie, à une nouvelle génération de lecteurs de s’initier à sa démarche et de créer les conditions pour une troisième étape de sa réception, déjà entamée. En France tout d’abord, puis, au fur et à mesure que les traductions ont vu le jour, en Europe, aux États-Unis et dans les pays hispanophones et lusophones.
C’est ainsi qu’à quelques-uns nous sommes partis récemment partager les questions que posent cette oeuvre à l’Université Catholique de Rio de Janeiro (PUC-Rio) et dans l’espace de danse Base Dinâmica au cours d’une Rencontre internationale Fernand Deligny : avec, autour et à partir des tentatives (25-27 août 2016). Nous en sommes revenus convaincus que l’arpentage du territoire Deligny ne faisait que commencer et que l’aventure devait continuer.

Ce « nous » qui ne demande qu’à s’élargir : un petit groupe de quatre chercheurs réunis par l’étonnante actualité de la tentative Deligny dans les champs de l’art – du cinéma et de l’écriture entre autres –, de l’anthropologie et de la clinique. Et désireux de prendre acte des résonances politiques de son oeuvre aujourd’hui.

Pour engager la possibilité d’un programme international de recherches que nous souhaitons faire vivre en 2018 et 2019, nous proposons cette année quatre premières rencontres ouvertes sans exclusive dans les différents champs que Deligny traversa avec intensité mais sans jamais s’y figer. Nous entendons y déplier un premier éventail de questions avec ceux qui, comme nous, lisent, pratiquent et pensent avec Deligny.

Programa