1913
Nasce em 7 de novembro em Bergues (Nord-Pas-de-Calais-Picardie), filho do segundo casamento de Louise Laqueux (neta do responsável pela Federeção Anarquista em Ardennes) e Camille Deligny (que será morto em combate em 1917 durante a Primeira Guerra).

1919-1931
Fernand Deligny, em 1919, obtém a condição de “Pupile de la nation”, como órfão de guerra. Faz seus estudos contando com a presença do avô materno, e é considerado aluno excelente. Nos anos 20 irá morar em Lille, pratica escotismo laico, e conclui os estudos secundários em 1931.

1931-1936
Recusa seguir a carreira militar, apesar da pressão familiar. Começa os estudos preparatórios para os concursos das Grandes Escolas, que abandona para cursar Filosofia e Psicologia na Universidade de Lille – mas passa a maior parte do seu tempo nos cinemas da cidade e nos cafés. Entre 1933-1935 é redator chefe da revista Lille Université, onde publica crônicas, críticas de filmes e outros textos. Nessa época começa a frequentar o Asilo de Armentières (perto de Lille). E, na sequencia de manifestações fascistas, ele se inscreve na Juventude Comunista e participa da organização dos estudantes comunistas na universidade. Logo depois inicia seu serviço na Escola Militar de Paris, na infantaria.

1937-1939
Vive em Paris com Josette Saleil, que conhecera em Lille. Em 1938, o pai de François Châtelet (amigo de infância de Deligny) lhe oferece um posto de professor substituto na escola primária da Rue de la Brèche-aux-Loups, onde permanece quatro meses. Completará o ano letivo em outra escola, em Nogent-sur-Marne. Seus “métodos” educacionais recusavam o uso de cadernos e incluíam passeios no Bosque de Vincennes com os alunos, além de jogos de mímica. Em 1939 aceita outro posto, agora no asilo de Armentières (rebatizado de Hospital Psiquiátrico dois anos antes), uma das mais importantes instituições de saúde mental da França. Casa com Josette Saleil e se muda para Armentières.

1939-1940
Mobilizado pelo Exército no regimento de infantaria de Lille, que parte para os Países Baixos. No ano seguinte, após o armistício (com a derrota francesa e a ocupação alemã) é desmobilizado e retorna para Armentières (agora sob controle alemão) e retoma suas atividades no Instituto Médico Pedagógico/IMP (para crianças com “atraso intelectual”).

1941-1942
O asilo é bombardeado. Deligny se torna educador no Pavilhão 3, encarregado das crianças consideradas “atrasadas e ineducáveis”. Lá ele impõe a supressão dos castigos, organiza ateliers, jogos e passeios com os vigias (operários desempregados, artesãos, ex-detentos). Em 1942 obtém o certificado de aptidão ao ensino de crianças “atrasadas”.

1943
Deixa Armentières e retorna a Lille. O governo de Vichy lhe propõe a direção da prevenção da delinquência juvenil na região Norte. Criação da Arsea (associação regional de salvaguarda da infância e da adolescência), na qual ocupa o cargo de conselheiro técnico.

1944
Publicação de Pavillon 3 e de uma série de artigos no Pour l’enfance coupable (publicação do Ministério da Justiça voltada para o estudo e a prevenção do crime), com Paul Guilbert (diretor médico do IMP). Em setembro, liberação de Lille.

1945
Deligny é nomeado diretor do primeiro Centro de observação e triagem (COT) da região Norte, em Lille. Ele concebe o centro (que reúne 80 adolescentes) como um lugar aberto, recruta monitores no meio sindical e operário e entre os desempregados. Muitos adolescentes que fugiam de casas de correção se refugiam no COT.

Publicação de Graine de Crapulle Conseils aux éducateurs que voudraient la cultiver.

1946
Publicação de Puissants personnages, dedicado à Catherine, filha de Deligny e Josette, nascida no ano anterior. Em maio a direção da Arsea põe fim às funções de Deligny. Ele aceita dirigir um estágio de formação de educadores em Montesson (Yvelines), mas pede demissão logo depois. Conhece Hugette Dumoulin, militante comunista e responsável, desde 1943, pelo Centro laico dos albergues da juventude em Paris. Deligny é nomeado diretor regional do Trabalho e cultura. Organiza projeções de filmes e conhece o crítico de cinema André Bazin e o documentarista Chris Marker.

1947

Hugette Dumoulin organiza, em Lille, a Union des jeunes filles de France du Nord. Na primavera, ela e Deligny realizam um espetáculo em Paris nas Arènes de Lutèce, interpretado por aprendizes da indústria têxtil. Deligny concebe a criação de uma rede de atendimento para adolescentes delinquentes, com a ajuda de militantes da educação popular e dos albergues da juventude. Primeiras reuniões que preparam a Grande Cordée, no Laboratório de psicobiologia da infância, dirigido por Henri Wallon.

Publicação de Vagabonds efficaces.

1948
Publicação dos estatutos da Grande Cordée, associação presidida por Henri Wallon. O conselho administrativo é composto por vários militantes comunistas. Os primeiros adolescentes são confiados à instituição. Deligny adere ao PCF – ele envia sua inscrição para Maurice Thorez (secretário geral do PCF entre 1930 e 1964) com um exemplar de Vagabonds efficaces. É convidado a se candidatar pelo partido nas eleições municipais, mas recusa.

1949-1954
Publicação de Les Enfants ont des oreilles. Em 1953, por falta de recursos, a Grande Cordée reduzirá suas atividades. Início da redação de Adrien Lomme.

1955-1957
Início da correspondência com Irène Lézine, psicóloga, militante do PCF e autora de uma biografia sobre Anton Sémionovitch Makarenko. Deligny planeja um filme sobre a experiência da Grande Cordée (mas apenas algumas sequências são filmadas). Desde 1948 a rede recebeu 134 adolescentes, e prosseguirá operando precariamente até o início dos anos 60.

1958-1962
Publicação de Adrien Lomme. François Truffaut procura Deligny para a elaboração das cenas finais do roteiro de Les Quatre Cents Coups (Os incompreendidos), seu primeiro longa, e que receberá o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes em 1959. Início da correspondência entre ambos, que dura até os anos 70, e de várias tentativas de colaboração em projetos de filmes – em 1968, Suzanne Schiffman, roterista de Truffaut, irá a Cevennes para filmar Janmari, que servirá de modelo para L’Enfant Sauvage, lançado em 1970. Em 1962 se encerra a experiência da Grande Cordée.

1962-1964
Filmagem de Moindre Geste.

1965-1966
Jean Oury e Félix Guattari convidam Deligny e seus colaboradores a integrar La Borde. Em 1966, Jean-Mari J. “Janmari”, diagnosticado como “encéfalopata profundo” é confiado à Deligny.

1967
No dia 14 de julho, Deligny deixa La Borde e se instala em Gourgas, em uma propriedade de Félix Guattari transformada em lugar de encontro de intelectuais e militantes de extrema esquerda. Deligny escreve panfletos contra a Guerra do Vietnam.

1968
Publicação dos Cahiers de la Fgéri, nos quais Deligny formula os princípios de uma rede de acolhimento de crianças autistas. Recusa o convite de Guattari para intervir nos eventos de Maio.

1969
Começo de uma nova tentativa com crianças autistas. Maud Mannoni, Françoise Dolto e Émile Monnerot (chefe da psiquiatria do hospital psiquiátrico de Marselha) lhe confiam as primeiras crianças. Jacques Lin se instala em Graniers, onde Janmari permanece. Outras crianças vivem em Monoblet. É a rede de origem. Primeiras cartas e linhas de erro. Publicação dos Cahiers de l’Aire, do qual Deligny participa até 1972.

1970-1974
Publicação de Vagabonds Efficaces et autres récits. Criação da associação Les Neumes, destinada a sustentar a tentativa em Cévennes. Cerca de quinze crianças vêm passar o Natal na rede. Fim da montagem, financiada com apoio de Chris Marker, de Le Moindre Geste. O filme é selecionado e apresentado na Semana da Crítica do Fertival de Cannes de 1971 (mas só entrará em circuito na França em 2004). Jacques Lin instala um novo acampamento no Serret com várias crianças autistas – o local se torna o “laboratório” da rede.

Em 1972, após ver Le Moindre Geste, Renaud Victor visita Deligny com seu irmão, que tem sintomas de autismo. Victor tem intenção de fazer um filme sobre a rede e se instala em Monoblet. Começo da colaboração entre ambos.

Em 1973, Jean e Dominique Lin, de dezoito e dezessete anos, abandonam os estudos e se juntam ao irmão Jacques. Na época, três crianças vivem permanentemente na rede: Cristophe B., Gilles T. e Janmari. As demandas de estágio se multiplicam. Começo da filmagem de Ce Gamin là, dirigido por Renaud Victor e produzido por François Truffaut e outros. Pierre-François Moreau visita Deligny – em 1978 ele publicará Fernand Deligny et les idéologies de l’enfance, com posfácio de Deligny. O grupo de rock britânico Pink Floyd faz uma doação que permite a compra da casa de Graniers, habitada por Deligny.

1975-1977
Publicação de Nous et l’innocent, escrito com Isaac Joseph, e de três números dos Cahiers de l’immuable, pela revista Recherches. Apresentação de Ce Gamin là no Festival de Cinema de Grenoble. O filme entra em circuito em Paris em salas de cinema e nos meios da educação especial, seguido de vários artigos, resenhas e matérias jornalísticas. Em meados de 1976 começa a correspondência com Louis Althusser – que o visitará em 1977. Deligny solicita ao INA (Instituto Nacional do Audiovisual) o material necessário para a instalação de uma unidade de vídeo.

 

1978-1983
Dossiê sobre Deligny na Nouvelle Critique, por Marie Bonnafé. Publicação de Balivernes por um pote, dedicado a Guattari. Publicação de Le croire et le craindre, escrito com Isaac Joseph. Deligny escreve o texto Quand le bonhomme n’y est pas, comentário do Livro II do Seminário de Jacques Lacan.

1980/abril: publicação de Singulière ethnie; maio: exposição Cartes et figures de la terre no Centro Pompidou; setembro, publicação de La septième face Du dé e de um dossiê em La Quinzaine littéraire sobre Deligny; novembro: publicação de Enfants et le silence. Montagem das sequências gravadas na rede por Pierre Deiber, para o Centro regional para a infância e adolescência inadptadas de Lyon, sob o título Le faire et l’Agir – acompanhdo pela voz off de Deligny, o documentário será usado na formação de educadores.

1981: redação de L’Arachnéen; 1982: redação de Acheminement ver l’image. 1983: redação de vários textos, entre eles A comme Asile e L’Éloge de l’asile (que serão publicados em 1999); 1983/setembro: publicação de Camérer (outros dois textos com esse título serão publicados em 2001 e 2004).

1984-1989
Deligny é hospitalizado com dupla úlcera estomacal. Desmobilização da rede, mas Deligny, Jacques Lin e Gisèle Durand permanecem em Graniers com Cristophe B., Janmari e Gilles T. 1985: Deligny e Renaud Victor escrevem o roteiro de um longa-metragem chamado Toits d’asile, cuja gravação será interrompida e enfim retomada, resultando no filme Fernand Deligny. À propos d’un film à faire, produzido em sociedade com emissoras de televisão. 1988: Deligny começa a escrever o relato autobiográfico L’Enfant de citadelle, que abandonará em 1993.

1990-1996
Exibição na televisão francesa de Fernand Deligny. À propos d’un film à faire. Os Cahiers du cinema publicam dossiê sobre o filme. 1994: Deligny hospitalizado com fratura no quadril – ele retornará a Graniers, mas ficará praticamente imobilizado. Falece em Graniers em 18 de setembro de 1996.

2002
Janmari falece em 11 de junho.

Esta cronologia é um resumo da “Chronologie” presente em Fernand Deligny Oeuvres, Édition établie et présentée par Sandra Alvarez Toledo.
Éditions de L’Arachnéen, Paris, 2007, pp. 1820-1831.